Chovia. Pela janela de seu quarto via correr os pingos juntando-se uns aos outros, quando não caindo apressadamente como se fossem nascer.
- Gametas masculinos procurando um óvulo.
Pensava dos pingos que desciam desesperadamente. Ao menos pensava. Solidão era a palavra certa para definir o momento.
- Meus pensamentos, a chuva e o quarto.
Dizia incessantemente para si, de tal forma que ecoava em sua mente. Passaram-se segundos, minutos, horas e não parava de pensar, de analisar o que estava a sua volta. Procurava a essência da vida sem ao menos saber viver, sem saber rir, sem saber chorar, sem sair do canto, só sabia sentir. Em seu peito a maior angústia era não conseguir falar o que lhe gritava o coração, a porta estava a cinco passos, havia pessoas na casa, poderia conversar com elas, ligar para alguém, comer algo, mas não, deu meia volta e se deitou na cama olhando dessa vez para o céu chuvoso carregado de nuvens que tornavam a natureza lutuosa. Parecia que tudo aquilo era solitário, mas apenas parecia.
Sua mente continuava a raciocinar, mas desta vez não era apenas em seus pensamentos, na chuva e no quarto, mas também nas mãos e nos próprios olhos. Ainda repousando sobre a cama colocara a mão esquerda sobre a testa fechando os olhos ao passo que a mão descia. Com a outra mão abriu os botões da roupa habilmente até o nível do diafragma.
- Sobraram apenas três botões.
Falara como que por impulso para si na tentativa de expressar, ao menos, o mais simples de seus pensamentos. Assim continuou, mas agora acariciando a região que compreende o esterno com seu dedo anelar direito.
- Que seria de mim sem minhas mãos? Sem meus pensamentos? O que seria do mundo sem meus olhos? Ou deveria perguntar o que seria de meus olhos sem o mundo? E o que seria do mundo sem a chuva? Para onde iria o vento que nesse momento adentra meu quarto? Não sou Deus.
Levantou-se de forma lenta e gradualmente caminhou até o que julgava ser o seu recanto: Uma mesa iluminada por uma luminária de luz suave e controlável com uns livros abertos e outros fechados. Arrasta a cadeira fazendo um barulho mínimo, abafado, devido ao carpete e senta-se com o olhar sereno e fixo para um caderno de capa dura azul a sua direita. Toca-o suavemente e depois desiste, desabotoa os três botões restantes e suspira, dessa vez olhando para cima. Os olhos azuis aparentavam estar perdidos olhando para o infinito composto pelo vazio, sua boca entreaberta parecia necessitar de vida, sua face de um beijo, seu corpo de um toque, suas mãos, estas não aparentavam, precisavam escrever.
Tocou o caderno novamente de forma suave como sempre, mas desta vez tomando para si, abrindo-o a fazia pensar que estava abrindo sua própria alma, ali estavam todas as respostas para suas dúvidas, estavam suas palavras escritas, seus pensamentos de alguma forma materializados, seus textos e poesias, estava seu alívio, seu juiz e seu perdão. Então com uma caneta em mãos começa a escrever o que o corpo consegue absorver da mente, fogem algumas palavras pensadas, idéias brilhantes. Ana escreve com razão, como Boileau, procura o equilíbrio, o bom senso, a liberdade.
“A liberdade não se compõe de exageros
Muito menos de permissão
Não é feita pela boca
Apenas falada pelo coração...
A liberdade não se resume à atitude
Pois que esta pode ser manipulada
A liberdade não se encontra em livros
Nem em teorias
A liberdade não se define por completo
Alguns exemplificam como o livre arbítrio
Atrevo-me a dizer que existe em apenas um lugar
Em meu pensamento
Sou o que penso, sou livre, sou Ana, logo, sou liberdade “
- Sou liberdade, sou liberdade, sou Ana, sou liberdade.
Repetia para si. Parou, pensou, levantou os olhos e suspirou. Lentamente ganhava mais ânimo, lembrava das palavras, algo não a deixava parar, precisava escrever, precisava expressar o que estava preso e solto simultaneamente, pois que sua mente vivia um estado o qual não se pode dizer nem mesmo espiritual, parecia que não estava em si. O corpo sim, mas a mente não, esta funcionava como uma caixa receptora do que Platão diria ser o mundo das idéias e as idéias apenas vinham e chegavam de cima para baixo, até que o fluxo do peito superou qualquer outro existente. Fechava os olhos a fim de ser o mais fiel possível ao que estava prestes a escrever, mas sabia de antemão que por melhor que fosse o poeta não conseguiria ser fiel em totalidade ao seu sentimento, sabia que as palavras eram apenas pontes e o seu texto o plano semimaterial de transição entre o concreto e o abstrato, dessa vez, apenas sentiu.
“O amor não dói porque não é ferida
O amor não mata porque não tem essa intenção
O amor fala em silêncio, não quer ser notícia
O amor é amor sem nenhuma pretensão
E sendo por si só já é demais
Além da filosofia
Platão que me perdoe
Mas amor não se define,
Dele nem sequer se fala
Apenas se sente
Como se sente o nada
Eu, Maria, sinto
Sem medo de sentir
Eu, Maria, amo
Sem medo de amar
Eu, Maria, sou, Maria que não tem medo de sentir nem de amar, porque sou, também, amor. “
- Sou o que sinto, e o que sinto é amor. Que esta lágrima que me corre o rosto prove para os que precisam de olhos para enxergar.
Uma sensação estranha tomava conta de Ana Maria. E ela não contava a ninguém, queria um abraço, por que não? Afinal era humana. Mas algo a deixava presa a cadeira e á caneta, algo dentro dela necessitava daquilo. Ela era amor, e como amor deveria amar, manifestar-se. Banhada de sentimentos sem outro coração ao lado para compartilhar, lágrimas caindo dos olhos sem ninguém para enxugá-las, não havia, sequer, um ser humano que fosse humano suficiente para entendê-la naquele momento, nem em casa, do outro lado da linha, nem na rua. Havia apenas a suposta solidão e agora o seu choro compulsivo, aparentemente triste e desolado. Sua mão esquerda fechava suavemente, seus pés contorciam-se, suas pernas atritavam-se como que estivesse com frio, e estava. Levantou-se, fechou a janela, já passavam das 10:00. Olhou-se no espelho rapidamente por questão de vaidade, notou os cabelos presos e os soltou, seria um crime não soltá-los da mesma forma que é um crime inibir o belo de se manifestar. Seus longos cabelos loiros, caíam sobre seus ombros perfeitamente assim como a água se adéqua a qualquer recipiente, seus olhos azuis brilhavam de forma serena em meio as lágrimas as quais ainda molhando-lhe o rosto expressavam seu amor. Seu corpo coberto por uma blusa branca de botões desabotoada, um short de tecido fino azul, descalça. Segura, então, os cabelos no movimento que vai da testa ao centro da cabeça e pára. Os fios de cabelo por dentre os dedos a fazem pensar, e agora o pensamento supera o que a prendia na cadeira.
- Meus dedos têm uns aos outros, meu cabelo é formado por vários fios e agora devido a um movimento meu ambos se tocam formando um só cabelo, ou uma só mão. Aprendi que isso é companhia, se já sei o que é companhia, o que seria solidão?
Olhou em volta procurando a solidão, até então deveria notar a sua volta, sem ninguém, o céu chuvoso, o quarto pouco iluminado, sozinha... Mas não, para ela aquilo não era solidão. Olhou-se novamente no espelho e sorriu, um sorriso sincero como quem se acha no meio do nada, dessa vez calmamente andou para a mesa parecendo que os pensamentos estavam todos organizados e sentou-se, como se fosse um ritual olhou para cima com os olhos aparentemente perdidos, a boca entreaberta e suspirou. Tomou a caneta na mão e tornou a escrever, mas desta vez não de liberdade ou amor, de solidão.
“Solidão não é a ausência de companhia
Muito menos outro nome para a tristeza
Solidão é o que sinto agora
Como se fizesse parte de minha natureza
Solidão não é o perdido, muito menos o vazio
Solidão não é um ser sem abrigo
Com frio...
Solidão é a presença do abstrato em maior quantidade que o material
É o encontro consigo mesmo em um outro plano dimensional
Que de tão perto, torna-se distante
Solidão não é a procura pela própria alma
Mas o seu encontrar
Solidão é saber quem você é
E o que está fazendo aqui
É a manifestação do silêncio em sua máxima
Buda que me corrobore
É algo que contempla o amor
Que vai além da morte...
Solidão é o que sou
É o que calo
Eu, Mariana, sou solidão
Sozinha e sem medo de ser só, então“
E repetiu novamente emocionada:
- Sou solidão, eu Mariana.
Já sabia, agora, o que era amor, liberdade e solidão. Por mais que parecesse triste encontrava-se intimamente em êxtase. Olhou para o livro e o fechou. Levantou da cadeira, apagou a luminária, e desligou, por fim, a luz do quarto, ainda chovia, deitou-se com um sorriso não no rosto, mas na alma, já que vivera intensamente, para ela, a vida, dentro de seu quarto sem ninguém. Cobriu-se e por último questionou como quem quer apenas corroborar.
- Quem sou?
Os olhos fechavam suavemente, seu corpo aquecido por um lençol e pela forma com que seu corpo se aprumava na cama, tudo influenciava para que ela concluísse, novamente, quem era.
- Sou Ana Maria Mariana, liberdade, amor e solidão
O que penso o que sinto e o que calo
Não sou Cecília, não sou triste
Sou o poder de minhas mãos
Ainda que julgada erradamente sei
Que sou transformação
E um dia mostrarei
Que a verdadeira felicidade não se encontra no puro concreto
Mas sim no abstrato, na solidão.
Por isso, digo de peito cheio, sou feliz!
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