Geralmente quando venho escrever algo para este blog escrevo poemas românticos ou coisas existenciais, e dificilmente me dirijo a você, caro amigo (a) que gasta seu tempo lendo textos de um ferinha graduando em letras da UPE. Agradeço, de ante mão a sua gentileza e atenção, e há um motivo muito especial para que eu escrevesse isso e o que há por vir, o motivo é que eu nunca fiz, então, quis fazer.
Vamos direto ao ponto:
Loucura
Loucura não é sair de carro com amigos e bater, sem querer, numa moto perto de sua casa, isso é azar
Não é ficar sexta-feira em Nazaré da Mata entre bebidas e pegação, o nome disso é, desculpem-me, burrice
Não participar disso é ser inteligente
Loucura não é assistir anime quando já se tem seus vinte e poucos anos, isso é se divertir
Não é inventar histórias sobre uma “amiga” que você conhece desde que era bv, o nome disso é sacanagem, mal caratismo, e burrice (de novo) em excesso – se bem que eu acho que é falta de um namorado ou o que fazer mesmo, mas tudo bem.
Loucura não é sair tardão da noite sozinho em busca de companhia, o nome disso é busca – óbvio
Loucura não é dizer que e o quanto gosta de alguém, o nome disso é coragem – tenta dizer, mas antes pensa como pode ficar a relação de vocês depois
Loucura não é criticar depreciativamente a ex-namorada de seu amigo “certinho” na frente dele, ou chamar a idéia desse amigo de idiota, o nome disso é assassinato de amizade – mas há pessoas para tudo nesse mundo, inclusive as que deixam esse tipo de coisa passar
Loucura não é passar a madrugada jogando vídeo game com os amigos quando no dia seguinte você tem compromisso sério do tipo entrevista de emprego ou até mesmo um emprego, o nome disso é espiritualização, pois não é fácil você colocar os bens espirituais na frente dos bens materiais, vejam que passar a noite jogando vídeo game com amigos é cultivar tanto a inteligência quando os laços de amizade, que lindo!- Na verdade o nome disso é falta de responsabilidade
Loucura não é fugir à razão e dizer que está vendo espíritos, já que espíritos existem, se vocês não acreditam me digam o que é a sensação de que tem alguém perto de você, ou então me explique com propriedade o que são os arrepios na espinha quando você adentra algum lugar
Loucura não é amarrar uma toalha no pescoço e dizer que é o superman
Loucura não é ficar com um ser que não estar nem aí para você, isso é ser humano
E se esse ser fuma umazinha isso passa a ser burrice (3) - é muita gente burra nesse mundo, Severino que tenha dó.
Loucura não é passar anos da sua vida gostando apenas de uma garota,isso é amor ou queijo, ou burrice (4) ou orgulho, ou alguma outra coisa que lhe prende e essa garota
Loucura não e fazer poemas de amor para uma pessoa que você nem gosta, isso é ser poeta
Loucura não é chorar escutando música ou algum filme, isso é ser sensível e entender a profundidade da arte, quem não entende não entende o porquê do choro
Loucura não é ter medo de um filme de terror antes mesmo do filme começar, isso é ser mole
Loucura não é andar com pessoas muito mais novas que você, o nome disso é cuidado
Loucura não é ficar perto daquele seu "amigo" chato do colégio que fica lhe batendo, isso é senvergonhice, mas no meu caso foi sorte, e das grandes
Loucura não é cobiçar a menina mais bonita da sala, isso é ser realista
Loucura não é ir para um show escondido, isso é desobediência
Loucura não é ir jantar no Sal e Brasa com amigos lisos, isso é ocupar a carteira com papel, porque o dinheiro vai embora, mas pense que vai, você pode até escutar o barulho
Loucura não é nada do que as pessoa dizem, e quem está nos hospitais está longe de ser louco
Porque loucura, enfim, é negar a si mesmo.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Renovação
“Quando estiveres triste, renova-te
Busca o infinito
Vai em direção ao silêncio, mas não te iludes
Não és tu que o acharás
Ele virá a teu encontro quando melhor achar conveniente
Transforma teu estado mental
Uníssono deves estar com o universo
Escuta a melodia advinda da emanação da pedra e da estrela
Procura Deus, teu deus, e acharás a ti
Não há nada que te entristeça agora “
Busca o infinito
Vai em direção ao silêncio, mas não te iludes
Não és tu que o acharás
Ele virá a teu encontro quando melhor achar conveniente
Transforma teu estado mental
Uníssono deves estar com o universo
Escuta a melodia advinda da emanação da pedra e da estrela
Procura Deus, teu deus, e acharás a ti
Não há nada que te entristeça agora “
Surpreso
Quando pensamos que as coisas estão saturadas,
Que não podem mais mudar
Sempre aparece alguém que nos mostra
O quanto estamos errados.
Por que não sermos nós, em vez dos surpresos
Os que surpreendem ?
Que não podem mais mudar
Sempre aparece alguém que nos mostra
O quanto estamos errados.
Por que não sermos nós, em vez dos surpresos
Os que surpreendem ?
Quimera
Sou o verbo da sua boca
O desejo de teu corpo
A água que te banha
O calor que te queima a alma
Sou a carta que não foi escrita
A tinta da caneta em desuso
A palavra que nunca foi dita
Ponte da vida ao mundo
Sou o infinito acima do bem e do mal
A máxima da guerra
Do materialismo sou a quimera
Sentada no banco da praça lendo jornal
Sou música em teus ouvidos
Luz a te cegar
Orgulho a se rebaixar
A mero pedinte de teu amor.
Então, por favor, não me negue
Não se retire de mim
Ao menos assim
Encontre um sentido para ser quem realmente sou.
O desejo de teu corpo
A água que te banha
O calor que te queima a alma
Sou a carta que não foi escrita
A tinta da caneta em desuso
A palavra que nunca foi dita
Ponte da vida ao mundo
Sou o infinito acima do bem e do mal
A máxima da guerra
Do materialismo sou a quimera
Sentada no banco da praça lendo jornal
Sou música em teus ouvidos
Luz a te cegar
Orgulho a se rebaixar
A mero pedinte de teu amor.
Então, por favor, não me negue
Não se retire de mim
Ao menos assim
Encontre um sentido para ser quem realmente sou.
Tempo
Existem pessoas que lhe marcam sem que você queira
De tal forma que as impressões atêm-se no coração
Digo mais, na alma.
Os sorrisos nunca são deixados para traz
Por vezes a vida resolveu apenas dar um tempo para os dois
Mas bem que é verdade que quando tem que ser é!
E não há força humana capaz de confrontar tal ponto
É algo divino, invisível, onipresente, inexplicável
Não vejo outra explicação racional.
Parece que existe uma comunicação alma a alma
E palavras são poucas para exprimirem
Quem dera
Os olhares transformam-se em oradores precisos.
Não há tempo que cure a saudade
Mesmo porque no tempo podemos encontrar as respostas
Mas é do amor que elas são escritas.
De fato, saber que um ser está, depois de tanto tempo, presente em sua alma
Não se explica
Apenas se sente, se amadurece e se vive.
De tal forma que as impressões atêm-se no coração
Digo mais, na alma.
Os sorrisos nunca são deixados para traz
Por vezes a vida resolveu apenas dar um tempo para os dois
Mas bem que é verdade que quando tem que ser é!
E não há força humana capaz de confrontar tal ponto
É algo divino, invisível, onipresente, inexplicável
Não vejo outra explicação racional.
Parece que existe uma comunicação alma a alma
E palavras são poucas para exprimirem
Quem dera
Os olhares transformam-se em oradores precisos.
Não há tempo que cure a saudade
Mesmo porque no tempo podemos encontrar as respostas
Mas é do amor que elas são escritas.
De fato, saber que um ser está, depois de tanto tempo, presente em sua alma
Não se explica
Apenas se sente, se amadurece e se vive.
Ana, Maria, Mariana
Chovia. Pela janela de seu quarto via correr os pingos juntando-se uns aos outros, quando não caindo apressadamente como se fossem nascer.
- Gametas masculinos procurando um óvulo.
Pensava dos pingos que desciam desesperadamente. Ao menos pensava. Solidão era a palavra certa para definir o momento.
- Meus pensamentos, a chuva e o quarto.
Dizia incessantemente para si, de tal forma que ecoava em sua mente. Passaram-se segundos, minutos, horas e não parava de pensar, de analisar o que estava a sua volta. Procurava a essência da vida sem ao menos saber viver, sem saber rir, sem saber chorar, sem sair do canto, só sabia sentir. Em seu peito a maior angústia era não conseguir falar o que lhe gritava o coração, a porta estava a cinco passos, havia pessoas na casa, poderia conversar com elas, ligar para alguém, comer algo, mas não, deu meia volta e se deitou na cama olhando dessa vez para o céu chuvoso carregado de nuvens que tornavam a natureza lutuosa. Parecia que tudo aquilo era solitário, mas apenas parecia.
Sua mente continuava a raciocinar, mas desta vez não era apenas em seus pensamentos, na chuva e no quarto, mas também nas mãos e nos próprios olhos. Ainda repousando sobre a cama colocara a mão esquerda sobre a testa fechando os olhos ao passo que a mão descia. Com a outra mão abriu os botões da roupa habilmente até o nível do diafragma.
- Sobraram apenas três botões.
Falara como que por impulso para si na tentativa de expressar, ao menos, o mais simples de seus pensamentos. Assim continuou, mas agora acariciando a região que compreende o esterno com seu dedo anelar direito.
- Que seria de mim sem minhas mãos? Sem meus pensamentos? O que seria do mundo sem meus olhos? Ou deveria perguntar o que seria de meus olhos sem o mundo? E o que seria do mundo sem a chuva? Para onde iria o vento que nesse momento adentra meu quarto? Não sou Deus.
Levantou-se de forma lenta e gradualmente caminhou até o que julgava ser o seu recanto: Uma mesa iluminada por uma luminária de luz suave e controlável com uns livros abertos e outros fechados. Arrasta a cadeira fazendo um barulho mínimo, abafado, devido ao carpete e senta-se com o olhar sereno e fixo para um caderno de capa dura azul a sua direita. Toca-o suavemente e depois desiste, desabotoa os três botões restantes e suspira, dessa vez olhando para cima. Os olhos azuis aparentavam estar perdidos olhando para o infinito composto pelo vazio, sua boca entreaberta parecia necessitar de vida, sua face de um beijo, seu corpo de um toque, suas mãos, estas não aparentavam, precisavam escrever.
Tocou o caderno novamente de forma suave como sempre, mas desta vez tomando para si, abrindo-o a fazia pensar que estava abrindo sua própria alma, ali estavam todas as respostas para suas dúvidas, estavam suas palavras escritas, seus pensamentos de alguma forma materializados, seus textos e poesias, estava seu alívio, seu juiz e seu perdão. Então com uma caneta em mãos começa a escrever o que o corpo consegue absorver da mente, fogem algumas palavras pensadas, idéias brilhantes. Ana escreve com razão, como Boileau, procura o equilíbrio, o bom senso, a liberdade.
“A liberdade não se compõe de exageros
Muito menos de permissão
Não é feita pela boca
Apenas falada pelo coração...
A liberdade não se resume à atitude
Pois que esta pode ser manipulada
A liberdade não se encontra em livros
Nem em teorias
A liberdade não se define por completo
Alguns exemplificam como o livre arbítrio
Atrevo-me a dizer que existe em apenas um lugar
Em meu pensamento
Sou o que penso, sou livre, sou Ana, logo, sou liberdade “
- Sou liberdade, sou liberdade, sou Ana, sou liberdade.
Repetia para si. Parou, pensou, levantou os olhos e suspirou. Lentamente ganhava mais ânimo, lembrava das palavras, algo não a deixava parar, precisava escrever, precisava expressar o que estava preso e solto simultaneamente, pois que sua mente vivia um estado o qual não se pode dizer nem mesmo espiritual, parecia que não estava em si. O corpo sim, mas a mente não, esta funcionava como uma caixa receptora do que Platão diria ser o mundo das idéias e as idéias apenas vinham e chegavam de cima para baixo, até que o fluxo do peito superou qualquer outro existente. Fechava os olhos a fim de ser o mais fiel possível ao que estava prestes a escrever, mas sabia de antemão que por melhor que fosse o poeta não conseguiria ser fiel em totalidade ao seu sentimento, sabia que as palavras eram apenas pontes e o seu texto o plano semimaterial de transição entre o concreto e o abstrato, dessa vez, apenas sentiu.
“O amor não dói porque não é ferida
O amor não mata porque não tem essa intenção
O amor fala em silêncio, não quer ser notícia
O amor é amor sem nenhuma pretensão
E sendo por si só já é demais
Além da filosofia
Platão que me perdoe
Mas amor não se define,
Dele nem sequer se fala
Apenas se sente
Como se sente o nada
Eu, Maria, sinto
Sem medo de sentir
Eu, Maria, amo
Sem medo de amar
Eu, Maria, sou, Maria que não tem medo de sentir nem de amar, porque sou, também, amor. “
- Sou o que sinto, e o que sinto é amor. Que esta lágrima que me corre o rosto prove para os que precisam de olhos para enxergar.
Uma sensação estranha tomava conta de Ana Maria. E ela não contava a ninguém, queria um abraço, por que não? Afinal era humana. Mas algo a deixava presa a cadeira e á caneta, algo dentro dela necessitava daquilo. Ela era amor, e como amor deveria amar, manifestar-se. Banhada de sentimentos sem outro coração ao lado para compartilhar, lágrimas caindo dos olhos sem ninguém para enxugá-las, não havia, sequer, um ser humano que fosse humano suficiente para entendê-la naquele momento, nem em casa, do outro lado da linha, nem na rua. Havia apenas a suposta solidão e agora o seu choro compulsivo, aparentemente triste e desolado. Sua mão esquerda fechava suavemente, seus pés contorciam-se, suas pernas atritavam-se como que estivesse com frio, e estava. Levantou-se, fechou a janela, já passavam das 10:00. Olhou-se no espelho rapidamente por questão de vaidade, notou os cabelos presos e os soltou, seria um crime não soltá-los da mesma forma que é um crime inibir o belo de se manifestar. Seus longos cabelos loiros, caíam sobre seus ombros perfeitamente assim como a água se adéqua a qualquer recipiente, seus olhos azuis brilhavam de forma serena em meio as lágrimas as quais ainda molhando-lhe o rosto expressavam seu amor. Seu corpo coberto por uma blusa branca de botões desabotoada, um short de tecido fino azul, descalça. Segura, então, os cabelos no movimento que vai da testa ao centro da cabeça e pára. Os fios de cabelo por dentre os dedos a fazem pensar, e agora o pensamento supera o que a prendia na cadeira.
- Meus dedos têm uns aos outros, meu cabelo é formado por vários fios e agora devido a um movimento meu ambos se tocam formando um só cabelo, ou uma só mão. Aprendi que isso é companhia, se já sei o que é companhia, o que seria solidão?
Olhou em volta procurando a solidão, até então deveria notar a sua volta, sem ninguém, o céu chuvoso, o quarto pouco iluminado, sozinha... Mas não, para ela aquilo não era solidão. Olhou-se novamente no espelho e sorriu, um sorriso sincero como quem se acha no meio do nada, dessa vez calmamente andou para a mesa parecendo que os pensamentos estavam todos organizados e sentou-se, como se fosse um ritual olhou para cima com os olhos aparentemente perdidos, a boca entreaberta e suspirou. Tomou a caneta na mão e tornou a escrever, mas desta vez não de liberdade ou amor, de solidão.
“Solidão não é a ausência de companhia
Muito menos outro nome para a tristeza
Solidão é o que sinto agora
Como se fizesse parte de minha natureza
Solidão não é o perdido, muito menos o vazio
Solidão não é um ser sem abrigo
Com frio...
Solidão é a presença do abstrato em maior quantidade que o material
É o encontro consigo mesmo em um outro plano dimensional
Que de tão perto, torna-se distante
Solidão não é a procura pela própria alma
Mas o seu encontrar
Solidão é saber quem você é
E o que está fazendo aqui
É a manifestação do silêncio em sua máxima
Buda que me corrobore
É algo que contempla o amor
Que vai além da morte...
Solidão é o que sou
É o que calo
Eu, Mariana, sou solidão
Sozinha e sem medo de ser só, então“
E repetiu novamente emocionada:
- Sou solidão, eu Mariana.
Já sabia, agora, o que era amor, liberdade e solidão. Por mais que parecesse triste encontrava-se intimamente em êxtase. Olhou para o livro e o fechou. Levantou da cadeira, apagou a luminária, e desligou, por fim, a luz do quarto, ainda chovia, deitou-se com um sorriso não no rosto, mas na alma, já que vivera intensamente, para ela, a vida, dentro de seu quarto sem ninguém. Cobriu-se e por último questionou como quem quer apenas corroborar.
- Quem sou?
Os olhos fechavam suavemente, seu corpo aquecido por um lençol e pela forma com que seu corpo se aprumava na cama, tudo influenciava para que ela concluísse, novamente, quem era.
- Sou Ana Maria Mariana, liberdade, amor e solidão
O que penso o que sinto e o que calo
Não sou Cecília, não sou triste
Sou o poder de minhas mãos
Ainda que julgada erradamente sei
Que sou transformação
E um dia mostrarei
Que a verdadeira felicidade não se encontra no puro concreto
Mas sim no abstrato, na solidão.
Por isso, digo de peito cheio, sou feliz!
- Gametas masculinos procurando um óvulo.
Pensava dos pingos que desciam desesperadamente. Ao menos pensava. Solidão era a palavra certa para definir o momento.
- Meus pensamentos, a chuva e o quarto.
Dizia incessantemente para si, de tal forma que ecoava em sua mente. Passaram-se segundos, minutos, horas e não parava de pensar, de analisar o que estava a sua volta. Procurava a essência da vida sem ao menos saber viver, sem saber rir, sem saber chorar, sem sair do canto, só sabia sentir. Em seu peito a maior angústia era não conseguir falar o que lhe gritava o coração, a porta estava a cinco passos, havia pessoas na casa, poderia conversar com elas, ligar para alguém, comer algo, mas não, deu meia volta e se deitou na cama olhando dessa vez para o céu chuvoso carregado de nuvens que tornavam a natureza lutuosa. Parecia que tudo aquilo era solitário, mas apenas parecia.
Sua mente continuava a raciocinar, mas desta vez não era apenas em seus pensamentos, na chuva e no quarto, mas também nas mãos e nos próprios olhos. Ainda repousando sobre a cama colocara a mão esquerda sobre a testa fechando os olhos ao passo que a mão descia. Com a outra mão abriu os botões da roupa habilmente até o nível do diafragma.
- Sobraram apenas três botões.
Falara como que por impulso para si na tentativa de expressar, ao menos, o mais simples de seus pensamentos. Assim continuou, mas agora acariciando a região que compreende o esterno com seu dedo anelar direito.
- Que seria de mim sem minhas mãos? Sem meus pensamentos? O que seria do mundo sem meus olhos? Ou deveria perguntar o que seria de meus olhos sem o mundo? E o que seria do mundo sem a chuva? Para onde iria o vento que nesse momento adentra meu quarto? Não sou Deus.
Levantou-se de forma lenta e gradualmente caminhou até o que julgava ser o seu recanto: Uma mesa iluminada por uma luminária de luz suave e controlável com uns livros abertos e outros fechados. Arrasta a cadeira fazendo um barulho mínimo, abafado, devido ao carpete e senta-se com o olhar sereno e fixo para um caderno de capa dura azul a sua direita. Toca-o suavemente e depois desiste, desabotoa os três botões restantes e suspira, dessa vez olhando para cima. Os olhos azuis aparentavam estar perdidos olhando para o infinito composto pelo vazio, sua boca entreaberta parecia necessitar de vida, sua face de um beijo, seu corpo de um toque, suas mãos, estas não aparentavam, precisavam escrever.
Tocou o caderno novamente de forma suave como sempre, mas desta vez tomando para si, abrindo-o a fazia pensar que estava abrindo sua própria alma, ali estavam todas as respostas para suas dúvidas, estavam suas palavras escritas, seus pensamentos de alguma forma materializados, seus textos e poesias, estava seu alívio, seu juiz e seu perdão. Então com uma caneta em mãos começa a escrever o que o corpo consegue absorver da mente, fogem algumas palavras pensadas, idéias brilhantes. Ana escreve com razão, como Boileau, procura o equilíbrio, o bom senso, a liberdade.
“A liberdade não se compõe de exageros
Muito menos de permissão
Não é feita pela boca
Apenas falada pelo coração...
A liberdade não se resume à atitude
Pois que esta pode ser manipulada
A liberdade não se encontra em livros
Nem em teorias
A liberdade não se define por completo
Alguns exemplificam como o livre arbítrio
Atrevo-me a dizer que existe em apenas um lugar
Em meu pensamento
Sou o que penso, sou livre, sou Ana, logo, sou liberdade “
- Sou liberdade, sou liberdade, sou Ana, sou liberdade.
Repetia para si. Parou, pensou, levantou os olhos e suspirou. Lentamente ganhava mais ânimo, lembrava das palavras, algo não a deixava parar, precisava escrever, precisava expressar o que estava preso e solto simultaneamente, pois que sua mente vivia um estado o qual não se pode dizer nem mesmo espiritual, parecia que não estava em si. O corpo sim, mas a mente não, esta funcionava como uma caixa receptora do que Platão diria ser o mundo das idéias e as idéias apenas vinham e chegavam de cima para baixo, até que o fluxo do peito superou qualquer outro existente. Fechava os olhos a fim de ser o mais fiel possível ao que estava prestes a escrever, mas sabia de antemão que por melhor que fosse o poeta não conseguiria ser fiel em totalidade ao seu sentimento, sabia que as palavras eram apenas pontes e o seu texto o plano semimaterial de transição entre o concreto e o abstrato, dessa vez, apenas sentiu.
“O amor não dói porque não é ferida
O amor não mata porque não tem essa intenção
O amor fala em silêncio, não quer ser notícia
O amor é amor sem nenhuma pretensão
E sendo por si só já é demais
Além da filosofia
Platão que me perdoe
Mas amor não se define,
Dele nem sequer se fala
Apenas se sente
Como se sente o nada
Eu, Maria, sinto
Sem medo de sentir
Eu, Maria, amo
Sem medo de amar
Eu, Maria, sou, Maria que não tem medo de sentir nem de amar, porque sou, também, amor. “
- Sou o que sinto, e o que sinto é amor. Que esta lágrima que me corre o rosto prove para os que precisam de olhos para enxergar.
Uma sensação estranha tomava conta de Ana Maria. E ela não contava a ninguém, queria um abraço, por que não? Afinal era humana. Mas algo a deixava presa a cadeira e á caneta, algo dentro dela necessitava daquilo. Ela era amor, e como amor deveria amar, manifestar-se. Banhada de sentimentos sem outro coração ao lado para compartilhar, lágrimas caindo dos olhos sem ninguém para enxugá-las, não havia, sequer, um ser humano que fosse humano suficiente para entendê-la naquele momento, nem em casa, do outro lado da linha, nem na rua. Havia apenas a suposta solidão e agora o seu choro compulsivo, aparentemente triste e desolado. Sua mão esquerda fechava suavemente, seus pés contorciam-se, suas pernas atritavam-se como que estivesse com frio, e estava. Levantou-se, fechou a janela, já passavam das 10:00. Olhou-se no espelho rapidamente por questão de vaidade, notou os cabelos presos e os soltou, seria um crime não soltá-los da mesma forma que é um crime inibir o belo de se manifestar. Seus longos cabelos loiros, caíam sobre seus ombros perfeitamente assim como a água se adéqua a qualquer recipiente, seus olhos azuis brilhavam de forma serena em meio as lágrimas as quais ainda molhando-lhe o rosto expressavam seu amor. Seu corpo coberto por uma blusa branca de botões desabotoada, um short de tecido fino azul, descalça. Segura, então, os cabelos no movimento que vai da testa ao centro da cabeça e pára. Os fios de cabelo por dentre os dedos a fazem pensar, e agora o pensamento supera o que a prendia na cadeira.
- Meus dedos têm uns aos outros, meu cabelo é formado por vários fios e agora devido a um movimento meu ambos se tocam formando um só cabelo, ou uma só mão. Aprendi que isso é companhia, se já sei o que é companhia, o que seria solidão?
Olhou em volta procurando a solidão, até então deveria notar a sua volta, sem ninguém, o céu chuvoso, o quarto pouco iluminado, sozinha... Mas não, para ela aquilo não era solidão. Olhou-se novamente no espelho e sorriu, um sorriso sincero como quem se acha no meio do nada, dessa vez calmamente andou para a mesa parecendo que os pensamentos estavam todos organizados e sentou-se, como se fosse um ritual olhou para cima com os olhos aparentemente perdidos, a boca entreaberta e suspirou. Tomou a caneta na mão e tornou a escrever, mas desta vez não de liberdade ou amor, de solidão.
“Solidão não é a ausência de companhia
Muito menos outro nome para a tristeza
Solidão é o que sinto agora
Como se fizesse parte de minha natureza
Solidão não é o perdido, muito menos o vazio
Solidão não é um ser sem abrigo
Com frio...
Solidão é a presença do abstrato em maior quantidade que o material
É o encontro consigo mesmo em um outro plano dimensional
Que de tão perto, torna-se distante
Solidão não é a procura pela própria alma
Mas o seu encontrar
Solidão é saber quem você é
E o que está fazendo aqui
É a manifestação do silêncio em sua máxima
Buda que me corrobore
É algo que contempla o amor
Que vai além da morte...
Solidão é o que sou
É o que calo
Eu, Mariana, sou solidão
Sozinha e sem medo de ser só, então“
E repetiu novamente emocionada:
- Sou solidão, eu Mariana.
Já sabia, agora, o que era amor, liberdade e solidão. Por mais que parecesse triste encontrava-se intimamente em êxtase. Olhou para o livro e o fechou. Levantou da cadeira, apagou a luminária, e desligou, por fim, a luz do quarto, ainda chovia, deitou-se com um sorriso não no rosto, mas na alma, já que vivera intensamente, para ela, a vida, dentro de seu quarto sem ninguém. Cobriu-se e por último questionou como quem quer apenas corroborar.
- Quem sou?
Os olhos fechavam suavemente, seu corpo aquecido por um lençol e pela forma com que seu corpo se aprumava na cama, tudo influenciava para que ela concluísse, novamente, quem era.
- Sou Ana Maria Mariana, liberdade, amor e solidão
O que penso o que sinto e o que calo
Não sou Cecília, não sou triste
Sou o poder de minhas mãos
Ainda que julgada erradamente sei
Que sou transformação
E um dia mostrarei
Que a verdadeira felicidade não se encontra no puro concreto
Mas sim no abstrato, na solidão.
Por isso, digo de peito cheio, sou feliz!
A Poesia e Eu
A expressão vem de dentro
Aflora à pele e modifica o modo
Com que se mostra o intento
De tal forma que não há letra sequer que eu não tenha escrito
A qual não possua parte de meu ser
Por mais que quisesse ser distante
Antes de tudo sou pensante
E amante do sentir
Não separo o texto de mim
Ainda que este não me seja fiel
Ainda que as palavras não me sejam fieis
Não me nego a apagar-me para que ele se acenda
Não me nego a suportar a parcial incompreensão
Pois que poesia não se mede
Não se lê, não se concebe
Apenas se sente; e se entende.
Aflora à pele e modifica o modo
Com que se mostra o intento
De tal forma que não há letra sequer que eu não tenha escrito
A qual não possua parte de meu ser
Por mais que quisesse ser distante
Antes de tudo sou pensante
E amante do sentir
Não separo o texto de mim
Ainda que este não me seja fiel
Ainda que as palavras não me sejam fieis
Não me nego a apagar-me para que ele se acenda
Não me nego a suportar a parcial incompreensão
Pois que poesia não se mede
Não se lê, não se concebe
Apenas se sente; e se entende.
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